A linguagem do educador tem papel extremamente importante para o desenvolvimento das crianças. A forma como falamos com os pequenos é realmente decisiva para o seu desenvolvimento moral e traz implicações que repercutem não apenas na sua autoestima, mas na percepção de si e na forma com que a criança se relacionará com os seus pares.
Em outras palavras, a linguagem do educador também é um dos fatores decisivos na formação da personalidade dos pequenos e desenvolvimento dos seus valores éticos, repercutindo para muito além da escolaridade. Sabemos que os professores estabelecem um importante modelo de conduta, exatamente pela escola representar um dos primeiros núcleos sociais do qual a criança têm condições de participar ativa e democraticamente, em segurança, e as relações estabelecidas lhes são referências fundamentais.
Se o adulto trata a criança de forma hostil ela aprende a resolver seus problemas com hostilidade. Não é criticando que o educador tornará uma criança melhor, mas poderá contribuir para o desenvolvimento de uma autoestima negativa e desvalorização pessoal. Para haver uma melhor comunicação é preciso que aprendamos a utilizar a escuta ativa, quando o educador não apenas ouve mas também comunica que compreendeu o que foi dito. Por exemplo, ele pode repetir de modo respeitoso e não sistemático o que a criança está argumentando ou demonstrando (“Eu entendo que você esteja chateado por ele ter pego seu brinquedo, você o estava usando, mas…”). Essa escuta ativa pode ser melhor estruturada por intermédio do recurso da linguagem descritiva, que demonstra aquilo que vemos sem apelar para juízos de personalidade e traduz nossos sentimentos genuínos sem recorrermos às chantagens emocionais ou mensagens acusatórias. Por exemplo, ao observar um ambiente extremamente desorganizado, ao invés de acusar a criança, colocando-se atributos valorativos e rótulos negativos, dizendo que é bagunceira, o adulto pode descrever a cena (“Eu percebi que o seu quarto está bem desorganizado hoje. Vejo os livros no chão, cama desfeita, os brinquedos jogados. Como podemos resolver isso?”).
Outra técnica de linguagem apresentada por Gordon é a mensagem-eu, que serve para descrever claramente a perspectiva do orador sem utilização de ameaças ou atribuições de culpa para resolver o problema entre criança e adulto. Com auxílio da perspectiva psicanalítica, a criança de fato acredita na opinião dos adultos a seu respeito, pois é heterônoma (o contrário de autônoma, quando já é capaz de se autorregular) e leva como verdade o que, por exemplo, seu professor ou seus pais lhe dizem, podendo realmente acreditar, sentir-se ou agir como tal (VINHA, 2000).
Ao proporcionarmos momentos em que as crianças possam extravasar sentimentos em sala de aula, em propostas gráficas ou verbais, estamos valorizando esses sentimentos e mostrando às crianças que o que elas sentem é muito importante para nós, que de fato, nos importamos com elas. Além disso, crianças que têm a oportunidade de reconhecerem os próprios sentimentos, compreendendo o que lhes causa alegria, tristeza, dor, admiração e tantos outros, têm condições de perceber a importância deles e de construir a ideia de que as outras pessoas também podem sentir, sem medos e nem preconceitos. Embora não haja a crença de que o fato de expressar os sentimentos possa garantir absoluto domínio de si mesmo, estudando as pesquisas de Tognetta (2003) baseadas na perspectiva da moralidade em Piaget (1932/1965), constatamos que se constitui numa maneira de favorecer a construção do autocontrole, do autoconhecimento e da autoestima.
Enfim, é importante que todo educador reflita sobre suas ações e palavras, pensando em sua repercussão, pois elas simplesmente não podem ser apagadas…
Não encontrei os textos aos quais faz referências. Qual seria Vinha,2000?
Olá! As citações referem-se apenas ao autor e ano de publicação da ideia consultada, por isso não há citação do livro. No caso, Vinha, 2000 refere-se ao livro de Telma Pillegi Vinha chamado “O educador e a moralidade infantil – uma visão construtivista”, de primeira edição em 2000. Abraço